20.2.18

Clarice Lispector no retiro do Papa Francisco





Clarice Lispector é um dos autores que o padre e poeta Tolentino Mendonça vai levar para ser uma das referências do exercício espiritual do Papa Francisco, que terá lugar dia 23 de Fevereiro, na Casa “Divin Maestro” di Ariccia, nos arredores de Roma, como contou à jornalista Antonella Palermo, do Vatican News.
Deus, afirmou o padre Tolentino, não é sobretudo um enigma, é apenas algo de invisível. Em Jesus tornou-se nosso próximo, por isso nos exercícios espirituais o mais importante é estar inteiramente aberto a essa vizinhança.
Tolentino afirma ter-se inspirado na poesia de Emily Dickinson quando escrevia que “a sede ensina o caminho para a água”, mas também em Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine de Saint-Exupéry e o escritor Tonino Guerra.

Relógio D’Água publica a obra de Gonçalo M. Tavares






A Relógio D’Água chegou a acordo com Gonçalo M. Tavares para nos próximos anos concentrar a publicação das suas obras na editora.
A partir de agora, os seus novos livros — à excepção de alguns para que já existam compromissos de publicação — sairão na Relógio D’Água, que procederá igualmente à reedição das suas obras à medida que forem ficando disponíveis.
Será mantida a organização por séries já existente (O Bairro, a Enciclopédia, etc.), procedendo-se por vezes à alteração do grafismo e ao agrupamento de livros saídos nas mesmas colecções.
Espera-se deste modo facilitar e alargar o contacto de Gonçalo M. Tavares com os seus leitores.
Gonçalo M. Tavares é autor de uma vasta obra traduzida em cerca de cinquenta países, sendo por isso um dos escritores mais traduzidos na história da literatura portuguesa.
Recebeu importantes prémios em Portugal e no estrangeiro. Em Portugal, obteve o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, o Prémio Literário José Saramago, o Fernando Namora e o Prémio Vergílio Ferreira.
Em França, Aprender a Rezar na Era da Técnica foi premiado com o Prix du Meilleur Livre Étranger em 2010. Recebeu ainda o Premio Internazionale Trieste Poesia em 2008, o Prémio Belgrado Poesia em 2009, o Grand Prix Littéraire du Web Cultura em 2010 e duas vezes o Prémio Oceanos no Brasil, tendo sido finalista por diversas vezes do Prix Médicis e do Prix Femina.
A sua linguagem em ruptura com as tradições líricas portuguesas e a subversão dos géneros literários fazem dele um dos mais inovadores escritores europeus da actualidade. 
Saramago vaticinou-lhe o Prémio Nobel. Vasco Graça Moura escreveu que Uma Viagem à Índia dará ainda que falar dentro de cem anos. Alberto Manguel considerou-o um dos grandes autores universais. Em entrevista recente, Vila-Matas comparou-o a Kafka e Lobo Antunes. O mesmo já fizera a The New Yorker, afirmando que, tal como em Kafka e Beckett, Gonçalo M. Tavares mostrava que a “lógica pode servir eficazmente tanto a loucura como a razão”.
O próximo livro a publicar será Dicionário sobre Literatura Bloom e, entre as reedições previstas para este ano, estão O Senhor Walser e a Floresta, O Senhor Brecht e o Sucesso, Livro da Dança, Animalescos, Atlas do Corpo e da Imaginação, e duas obras para o público infanto-juvenil, Os Dois Lados e Os Amigos.
Gonçalo M. Tavares junta-se assim no catálogo da Relógio D’Água (onde já tinha várias obras) a autores como José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís e Hélia Correia.

Melhores cumprimentos,
Francisco Vale

Lisboa, 19 de Fevereiro de 2018

[fotografia de Teresa Sá]

19.2.18

A chegar às livrarias: Nesta Grande Época — Sátiras Escolhidas (selecção, tradução, prefácio e notas de António Sousa Ribeiro)




«A partir de 1902, ano em que publica o texto “Moral e criminalidade”, Kraus encontra o seu primeiro grande tema, a hipocrisia da moral dominante e as suas consequências, nomeadamente, para a opressão da mulher, vitimizada pelo aparelho judiciário com a conivência activa de uma imprensa sensacionalista. Nesta área sobre todas sensível numa sociedade de cariz vitoriano, reina a mais nefasta confusão entre o público e o privado: enquanto assuntos públicos são tratados como negócios entre particulares, a esfera privada, nomeadamente a esfera íntima da mulher, é invadida sem quaisquer escrúpulos. A crítica à moral sexual dominante e, em particular, ao uso de um enquadramento jurídico obsoleto e misógino como sustentáculo de uma sociedade hipócrita, que nega à mulher o direito à sexualidade, percorre toda a primeira década da revista, atingindo, pode dizer-se, um quase paroxismo num texto como “A muralha da China”, de 1910, incluído no presente volume.» [Do Prefácio de António Sousa Ribeiro]

16.2.18

Sobre Descrição Guerreira e Amorosa da Cidade de Lisboa, de Alexandre Andrade




Hugo Pinto Santos escreveu no «ípsilon» sobre «Descrição Guerreira e Amorosa da Cidade de Lisboa», de Alexandre Andrade:

«(…) este romance não vê baldados os seus esforços de equilíbrio de forças contrárias, nem se deixa invadir por brechas que comprometessem a sua estrutura, ou pudessem enfraquecê-lo sem conserto possível. Para a resistência dessa edificação não deixará, igualmente, de contribuir um factor que é comum a trabalhos prévios de Alexandre Andrade. O rigor da linguagem, como instrumento de precisão e investimento estilístico, a impecável urdidura dos segmentos, a montagem superior do todo. Sem ceder à tentação “preciosista” que poderia ter levado o estilo a suplantar o homem (parafraseando a máxima de Buffon), Descrição Guerreira conta com essa solidez de construção para que todos os elementos disruptivos — cavaleiros em demanda pelo Graal a dormirem em pensões lisboetas, a rainha Genevra (forma como se escrevia na Demanda do Santo Graal) em apuros pela cidade — sejam concorrentes, e não adversários, do conseguimento da ficção.» [16/2/2018]

De Alexandre Andrade a Relógio D’Água publicou também Benoni, O Leão de Belfort e Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso

A chegar às livrarias: Contos Escolhidos, de Franz Kafka (trad. de Carlos Leite)





Este livro reúne onze contos de Kafka.
Entre eles estão alguns dos mais notáveis, como «Textos do Tema “O Caçador Graco”», «Um Médico de Aldeia», «Preparativos para Um Casamento no Campo» e «Josefine, a Cantora ou O Povo dos Ratos».

«(…) O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito a afirmar que esta antologia de contos nos dá integralmente a medida de tão singular escritor.» [Jorge Luis Borges]

15.2.18

O desejo de perdurar




Comecei por conhecer Natália Nunes como autora, tendo a Relógio D’Água editado três dos seus romances. 
Mais tarde, encontrei-me algumas vezes com ela em casa da filha, Cristina Carvalho.
Natália Nunes fez parte de uma geração de escritoras cuja obra, iniciada nos anos cinquenta do século xx, escapou às correntes do neo-realismo e do surrealismo. Umas transcenderam o seu tempo e mantêm-se actuais, como é o caso de Agustina Bessa-Luís. Outras conseguiram fazê-lo em muitas das suas obras, como sucedeu como Maria Judite de Carvalho, Irene Lisboa, Fernanda Botelho e a própria Natália Nunes.
Era uma intelectual que mantinha uma lucidez por vezes cortante. Quando a conversa era literária, entusiasmava-se, e o seu sorriso era uma cintilação de ironia.
Foi de uma grande coragem quando jovem e bela mulher de uma família tradicional beirã se dispôs a casar com um homem quinze anos mais velho, divorciado e pai de um filho. Era Rómulo de Carvalho e a sua história amorosa é um segredo que, para um estranho como eu, só pode ser pressentida nalguns versos de Gedeão ou frases dos romances de Natália Nunes.
Às vezes, encontrava-a passeando por caminhos de Quintas. Ia absorta e o Vale de Deus e as montanhas cobertas de pinheiros e urze branca pareciam apenas um cenário para as suas meditações. O vale tem início numa capela onde outrora o mar chegava e é atravessado por um ribeiro que vai desaguar na Praia de São Lourenço. No último Verão, o vale e a montanha arderam e são agora uma paisagem de castanho e cinza.
Há algumas semanas Cristina Carvalho ofereceu-me, com visível entusiasmo, um livro de Natália Nunes: Horas Vivas. «Lê», disse-me, «vais ficar espantado.» O livro permaneceu algumas semanas na minha secretária e lamento agora não o ter aberto há mais tempo. São memórias de infância dedicadas ao pai.
Começam assim:
«Um dia, quando vivíamos ainda na cidade, o pai chegou a casa mais cedo do que costumava. Vinha extremamente pálido e amparado por dois homens que o levaram para o quarto e o depuseram sobre a cama.»


Francisco Vale

Sobre a morte de Natália Nunes





Sobre a morte de Natália Nunes ( 1921 – 2018 ) portuguesa, escritora, tradutora, ensaísta, nome este que, para muitos e muitos, tem sido ouvido, recentemente, pela primeira vez.
Natália Nunes tem passado despercebida do grande público leitor. O seu primeiro livro publicado, em 1952, “Horas Vivas” memórias de infância é uma obra de arte literária. Seguiram-se muitos outros romances, novelas, contos. Traduziu, incansavelmente, toda a obra de Tolstoi, de Dostoievsky, de Elsa Triolet, de Mircea Elíade (História das Religiões), Violette Leduc, etc. Escreveu muitos ensaios e posso destacar “A Ressurreição das Florestas” um estudo sobre a obra de Carlos de Oliveira ou  “As Batalhas que Nós Perdemos” estudos sobre as obras de Augusto Abelaira, José Cardoso Pires e Raul Brandão ou “A metafísica de Húmus de Raul Brandão” para só mencionar alguns destes trabalhos ; colaborou em diversas revistas da especialidade e durante muitos anos como a Vértice ou a Seara Nova.
Enfim, uma vida inteira dedicada com paixão à arte literária. E quantos e quantos escreveram quilómetros de linhas que, num diminuto espaço temporal, deixam de ser lembrados? Que memória é esta, a que fica destas pessoas que, por interesse, por paixão, tanto escreveram? Que memórias nos deixaram? Que interesse tem tudo? Para que servirá tudo isto?
A memória é labiríntica, intercepta tempos e espaços e realidades psicológicas  e históricas completamente diferentes, misturando-as. Nunca se sabe onde nos pode levar e o que pode produzir, essa memória, entrelaçando o efémero e o permanente, o subtil e o concreto que são matéria prima e elementar da construção literária. Mas a lembrança, essa, por si só não aparece a ninguém, nem sequer como alucinação. A lembrança de alguém tem de ser orientada, apresentada, tem de percorrer todo um processo cognitivo. A educação é assim.   E só assim se inaugura ou se mantém uma obra valorosa. Como a história de todas as artes tem demonstrado.
A Relógio D’Água publicou, da sua produção ficcional, as seguintes obras:
“Vénus Turbulenta” ; “Assembleia de Mulheres” ; “As Velhas Senhoras e Outros Contos”
Natália Nunes nasceu a 18 de Novembro de 1921 e morreu a 13 de Fevereiro de 2018. 
Foi casada com Rómulo de Carvalho – professor, cientista, divulgador da ciência que usou o pseudónimo de António Gedeão na sua poesia.



Cristina Carvalho  (filha) 14 de Fevereiro 2018
[fotografia de Nanã Sousa Dias]